DEFINIÇÃO
As hérnias da parede abdominal ditas ventrais são todas as hérnias que aparecem na parede abdominal na sua parte da frente, isto é, umbigo, região epigástrica (acima do umbigo), após cirurgias anteriores no abdome (hérnias incisionais) e mesmo as hérnias que voltaram após cirurgia para correção (hérnias recidivadas). Sendo assim, essa hérnia não é de um tipo específico, mas sim toda hérnia que aparece na parte da frente do abdome.
CAUSAS
A etiologia (causa) de cada tipo é variável, dependendo do local onde ela surge e dependente também se é primária (não há cirurgia prévia no local dela) ou secundária, isto é, surgiu após uma cirurgia nesse local. As hérnias primárias, isto é, que surgem espontaneamente ao longo da vida estão relacionadas a um defeito do colágeno, esforço físico, tabagismo e ganho de peso (obesidade). Já as hérnias secundárias, que surgem após uma cirurgia nesse local, geralmente estão relacionadas a um defeito na cicatrização, que pode ser próprio da pessoa ou decorrente de alguma complicação da cirurgia prévia (hematoma, infecção ou abertura dos pontos).
SINTOMAS
Essas hérnias ventrais geralmente se apresentam como um abaulamento no local da mesma, que aumenta com o esforço físico e dor no local.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico delas é feito através do exame físico (exame realizado pelo médico), ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética. Na grande maioria das vezes esse diagnóstico pode ser feito pelo exame físico, mas existem situações em que há dúvidas quanto à presença da hérnia e seu tamanho, sendo que nesses casos, os exames complementares ajudam. A ultrassonografia é um bom exame de triagem, isto é, serve para confirmar ou excluir a presença da hérnia. Porém, como planejamento cirúrgico a tomografia computadorizada é o exame de escolha.
COMPLICAÇÕES
Sobre as complicações dessas hérnias, podemos citar: encarceramento e estrangulamento. O encarceramento é quando o conteúdo da hérnia sai e não volta mais para dentro do abdome, o qual pode ser gordura, intestino e outros órgãos, a depender do local da hérnia. Já o estrangulamento é quando esse conteúdo que saiu sofre infarto (necrose), isto é, o sangue não consegue circular adequadamente nesses tecidos e os mesmos morrem. Ambas situações são condições de urgência que precisam de uma cirurgia de urgência para correção.
TRATAMENTO
A indicação para correção dessas hérnias é baseada em: tamanho e sintomas (dor ou desconforto). Hérnias pequenas (menores que 1 cm) e sem sintomas associados podem ser acompanhadas, não oferecendo risco para o paciente. Entretanto, hérnias maiores que 1 cm e com sintomas associados, tem indicação de correção cirúrgica. Claro, cada caso é avaliado individualmente, levando em conta a idade do paciente, os problemas de saúde associados e ao local da hérnia. O tratamento da hérnia é cirúrgico. Como a hérnia é um defeito na aponeurose (couro que reveste nossa parede abdominal) o princípio da correção da hérnia é corrigir esse defeito, seja pela simples rafia (costura) do defeito ou rafia mais colocação de tela para reforço. A rafia do defeito, isto é, apenas a costura do defeito, sem o reforço com tela, hoje é reservada apenas para os casos de hérnias primárias pequenas, isto é, hérnias que apareceram espontaneamente e que são menores que 1 cm de diâmetro. Todas as demais hérnias devem ser corrigidas com a colocação de uma tela como reforço. Essa necessidade de colocação da tela surge em decorrência das elevadas taxas de recidiva das hérnias quando as mesmas são apenas rafiadas. Essa taxa de recidiva é em torno de 20%. Quando está indicada apenas a rafia, esta é uma cirurgia bem simples, realizada com uma pequena incisão na pele, em cima do local da hérnia ou próxima a ela, em regime de cirurgia ambulatorial, isto é, sem necessidade de internação hospitalar. Entretanto, quando está indicada a colocação de tela, a cirurgia se torna um pouco mais complexa. Atualmente, levando em consideração os riscos de infecção da tela, de recidiva da hérnia, dor associada, complicações relacionadas à pele (necrose, fístula), o melhor local para se colocar a tela é retromuscular, isto é, abaixo dos músculos da parede abdominal, também chamado de Sublay (nome em Inglês). Nessa cirurgia, em que a tela é colocada abaixo do músculo reto abdominal, além da correção de todas as hérnias presentes, faz se também a correção da diástase dos músculos reto abdominais, o que proporciona um melhor resultado estético final. Essa técnica, também conhecida como Rives-Stoppa (nomes dos médicos que descreveram a mesma) é a técnica de escolha para a correção com tela da maioria das hérnias, devido aos seus melhores resultados e menores índices de complicações, sendo que esta técnica também permite a reconstrução da parede abdominal, o que proporciona ao paciente uma fisiologia normal da parede abdominal após a cirurgia, isto é, retorno pleno às atividades físicas. Essa cirurgia de correção das hérnias com tela, chamada Rives-Stoppa, pode ser realizada de três maneiras, a depender de cada paciente, sendo elas: via aberta (cirurgia convencional), cirurgia videolaparoscópica e cirurgia robótica. A cirurgia convencional (aberta) é usada nos casos de pacientes com hérnias muito grandes, com diversas cirurgias prévias para correção das hérnias ou com condição de saúde mais frágil – idosos, pneumopatas, cardiopatas etc. A cirurgia videolaparoscópica é a cirurgia realizada por via minimamente invasiva, proporcionando ao paciente menos cortes na pele, menor taxa de complicações de ferida operatória (infecção, seroma, hematoma, necrose de pele) e menos dor no período pós-operatório. Entretanto, apresenta como desvantagem um tempo cirúrgico maior. Por fim, a cirurgia robótica é a técnica realizada com o auxílio da plataforma robótica, que permite a realização da cirurgia de forma minimamente invasiva, com os benefícios da cirurgia laparoscópica acrescidos de menor tempo cirúrgico e menores incisões na pele, o que a torna o padrão-ouro na realização dessa cirurgia.
Texto escrito pelo Dr. Jefferson Kalil