CÂNCER GÁSTRICO
Introdução
O câncer gástrico, também conhecido como câncer de estômago, é o termo usado para designar os tumores (neoplasias) que surgem no estômago. O estômago é um órgão do sistema digestivo que tem como funções: misturar os alimentos, servir como reservatório para os alimentos ingeridos e iniciar o processo de digestão (digestão química). Atualmente o câncer gástrico é um dos tumores mais comuns em todo o mundo. O número de casos novos dele vinha diminuindo nos últimos 20 anos, uma vez que passamos a conhecer melhor seus fatores de risco, no entanto está ocorrendo um novo aumento no número de casos de câncer de estômago, especialmente em pessoas mais jovens. A distribuição do câncer de estômago não é homogênea no mundo, predominando nos países orientais, da Europa e da América do Sul, além de ser um câncer que acomete mais homens do que mulheres. Entre todos os tumores que aparecem no estômago o chamado Adenocarcinoma é o mais comum e mais agressivo. Além disso, o Adenocarcinoma de estômago ainda pode ser dividido em dois tipos: Intestinal e Difuso.
Fatores de risco
Os tumores de estômago apresentam como fatores de risco: infecção por Helicobacter pylori, gastrite atrófica, metaplasia intestinal (transformação das células do estômago em células com aparência de células do intestino), alimentação rica em sal (sódio), alimentação rica em compostos N-nitrosos (embutidos, carnes defumadas, alguns vegetais, queijos etc), tabagismo (cigarro), obesidade, cirurgia gástrica prévia (não todos os tipos) e radioterapia prévia no abdome. Inversamente, os fatores de proteção contra esse tipo de câncer são: consumo de frutas, vegetais e fibras, especialmente os ricos em vitamina C, uso de anti-inflamatórios (não é recomendado o uso contínuo devido aos efeitos colaterais dos mesmos) e a presença de hormônios nas mulheres. Em especial, vale considerar que a predisposição genética é de suma importância. Sabemos que o câncer gástrico tem como fator de risco a presença de casos na família, sendo que teriam genes que predisporiam ao mesmo. Nem todos os genes são conhecidos, mas sabemos que nas famílias com casos prévios, as chances de se ter o mesmo são maiores. Uma situação particular é o caso do Câncer Gástrico Difuso Hereditário, que tem como base a mutação no gene CDH1, a qual predispõe ao surgimento de câncer no estômago em praticamente todos os portadores, sendo que nesses casos está indicada a retirada do estômago todo (gastrectomia total) na juventude, como cirurgia profilática. Um assunto ainda controverso é sobre o rastreamento do câncer gástrico. Em populações de baixo risco, isto é, em pessoas não descendentes de orientais e sem casos na família, não há indicação. Quando há casos na família e/ou descendentes de orientais, individualizamos cada caso para avaliar se há necessidade ou não. Além disso, levamos em conta se já existem lesões precursoras, tais como gastrite atrófica e metaplasia intestinal.
Sintomas
Os sintomas do câncer gástrico podem ser dispepsia, queimação leve, náusea e perda do apetite, porém há casos em que os pacientes são assintomáticos e outros que já apresentam anemia e perda de peso. Sintomas de obstrução não são comuns, porém quando presentes indicam doença mais avançada.
Diagnóstico
O diagnóstico do câncer de estômago é feito essencialmente pela endoscopia digestiva alta com biópsia. O aspecto no próprio exame da endoscopia pode ser muito sugestivo, mas é obrigatória a confirmação com biópsia. Uma vez feito o diagnóstico, partimos para o que chamamos de estadiamento, isto é, saber em qual estágio o câncer se encontra (localizado ou com metástases). O estadiamento é feito utilizando-se outros exames: Tomografias de Tórax e Abdome, Eco-endoscopia digestiva alta (endoscopia associada ao ultrassom), PET-CT (usado seletivamente) e Laparoscopia de estadiamento (usada seletivamente também). Após esses exames, classifica-se o tumor em um determinado estádio: doença restrita ao órgão, doença locoregional, doença loco-regional avançada ou doença avançada (com metástases).
Tratamento
Por fim, em relação ao tratamento, há diversas modalidades, a depender do estadiamento. Em lesões iniciais, restritas à parte mais interna do estômago (mucosa), pode-se realizar apenas o tratamento endoscópico, com chance de cura (ressecção endoscópica); em casos mais avançados em que o tumor ainda não deu metástases, pode-se optar pelo tratamento com cirurgia inicialmente ou com quimioterapia seguida de cirurgia, levando-se em consideração alguns fatores nessa decisão; e nos casos em que já existem metástases, o tratamento é com quimioterapia. Em relação especificamente à cirurgia para o tratamento do câncer gástrico há muitas possibilidades, desde a retirada parcial do estômago (gastrectomia parcial) em que se retira uma parte do estômago (onde está o tumor), preservando uma parte sem tumor ou a retirada total do estômago (gastrectomia total) em que se retira todo o estômago. A escolha entre uma técnica ou outra depende do tipo de tumor e da localização do mesmo. O fato de se preservar uma parte do estômago é melhor em termos de qualidade de vida, no entanto fazemos o que está mais indicado no tratamento do câncer. Essa cirurgia de gastrectomia trata-se de uma cirurgia de alta complexidade, na qual retira-se o estômago e os linfonodos que drenam o mesmo (são estruturas linfáticas que podem ter células tumorais), além de se fazer a reconstrução do trato alimentar, isto é, a reconstrução do tubo digestivo, para que o paciente possa comer por boca após a cirurgia. Hoje, com o advento de novas tecnologias, apesar dessa cirurgia ser classicamente realizada por via convencional (cirurgia aberta), podemos realizá-la por via minimamente invasiva (Laparoscopia ou Robótica). A laparoscopia permite realizar essa cirurgia com qualidade, no entanto demanda um grande tempo cirúrgico e grande disponibilidade de materiais, além de uma equipe altamente especializada. No entanto, temos hoje o recurso da Robótica, uma plataforma que permite realizar essa cirurgia com uma qualidade excelente, com segurança e com os melhores padrões tanto no que diz respeito à qualidade da reconstrução como no resultado oncológico.
Texto escrito pelo Dr. Jefferson Kalil