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HÉRNIA INGUINAL (HÉRNIA DA VIRILHA)

 

INTRODUÇÃO

A hérnia inguinal, também conhecida como hérnia da virilha, é uma doença muito comum, que pode acometer desde crianças até adultos. Acomete homens e mulheres, sendo mais comum em homens. A hérnia, por definição, é a ruptura da aponeurose da parede abdominal. Essa aponeurose é um tendão (“couro”) que dá a firmeza de toda a parede abdominal, porém na região inguinal ela é mais frágil, por questões anatômicas. Nos seres humanos, a região inguinal não apresenta musculatura, o que torna essa região mais frágil e passível de sofrer ruptura, dando origem à hérnia.

 

CLASSIFICAÇÃO

Três tipos de hérnias podem aparecer na região inguinal: hérnia direta, hérnia indireta e hérnia femoral. A hérnia inguinal direta é uma hérnia que surge em decorrência de uma fraqueza no colágeno dessa aponeurose, que com o esforço físico, uso de medicações (corticóide), envelhecimento, tabagismo e obesidade, essa aponeurose acaba se rompendo, surgindo a hérnia. A hérnia inguinal indireta, por sua vez, é a hérnia que desce junto com o cordão espermático (homens) e no ligamento redondo do útero (mulheres), que liga a região inguinal até os testículos nos homens e os grandes lábios nas mulheres. Esse tipo é comum nas crianças, mas pode surgir em adultos também. Já o terceiro tipo, a hérnia femoral, é a hérnia que está na região da virilha, mas ela aparece na coxa, logo abaixo da região inguinal. Esse tipo é mais comum em mulheres e com mais freqüência pode complicar.

 

SINTOMAS

Os sintomas mais comuns da hérnia inguinal são: abaulamento na região inguinal aos esforços, dor na região inguinal e dor irradiada para os testículos nos homens.

 

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico na maioria das vezes é clínico, isto é, pelo exame do médico já é possível avaliar se existe hérnia e qual o tamanho da mesma. No entanto, nem sempre é possível fazer esse diagnóstico só examinando. Especialmente nas mulheres, devido à anatomia diferente, necessitamos muitas vezes do auxílio de exames de imagem, além dos pacientes obesos, que também são mais difíceis de examinar. Sobre os exames, o exame mais simples e com boa confiabilidade é o ultrassom da região inguinal. Porém, mesmo após a realização de exames de imagem, em alguns casos ficamos na dúvida realmente se tem uma hérnia ou não.

 

INDICAÇÕES DE CIRURGIA (NECESSIDADE DA CIRURGIA)

Sobre a necessidade de cirurgia, isto é, a correção cirúrgica da hérnia consideramos alguns critérios: presença ou não de sintomas, tamanho da hérnia e tipo da hérnia (direta, indireta ou femoral). Uma indicação clássica e óbvia é a presença de sintomas associados, uma vez que a correção da hérnia melhora por completo esses sintomas. Em relação ao tamanho, hérnias muito pequenas obrigatoriamente não precisam ser operadas, porém vale ressaltar que uma vez a hérnia presente ela não desaparecerá sem cirurgia e a tendência com o passar dos anos é aumentar. Já as hérnias maiores sempre têm indicação de correção, devido aos riscos de complicações. Por fim, sobre o tipo de hérnia, toda hérnia femoral obrigatoriamente deve ser corrigida, pois as taxas de complicações nessas hérnias são bem altas, independentemente da presença de sintomas e do tamanho dela.

 

COMPLICAÇÕES

As taxas de complicações das hérnias inguinais são baixas, porém quando complicam apresentam conseqüências graves, como necrose e perfuração intestinais. Classicamente, usamos dois termos para descrever as complicações: encarceramento e estrangulamento. O encarceramento é quando a hérnia sai e não volta, isto é, não conseguimos reduzir o conteúdo dela de volta para a cavidade abdominal. Já o estrangulamento é quando o conteúdo dentro da hérnia necrosa. Esse conteúdo pode ser gordura, alças intestinais, bexiga ou ovários.

 

TRATAMENTO

Por fim, o tratamento das hérnias da região inguinal é essencialmente cirúrgico. Uma vez que o defeito na aponeurose (ruptura) está estabelecido, não há como ocorrer esse reparo sem que haja uma intervenção cirúrgica. Atualmente, todas as hérnias da região inguinal (direta, indireta e femoral) são corrigidas com a colocação de tela. Sabe-se que com a colocação da tela as taxas de recidiva, isto é, a chance da hérnia voltar, são menores do que 1%. Como dito acima, a região inguinal é uma área de fraqueza natural da parede abdominal e a tela tem a função de reforçar essa região. Sobre os tipos de cirurgia, podemos citar a cirurgia aberta e a cirurgia por via minimamente invasiva (laparoscopia ou robótica). A cirurgia aberta é feita através de um corte na região inguinal, sendo que essa técnica atualmente é realizada nos serviços onde não se dispõe de material de laparoscopia ou quando o paciente não tolera a anestesia geral ou quando já fez a correção por laparoscopia e a hérnia voltou. Em contrapartida, temos a correção por via minimamente invasiva, que é a correção por videolaparoscopia ou cirurgia robótica. Atualmente, nos serviços privados, essa é nossa escolha, pois o paciente apresenta menor dor no pós-operatório, menores cortes no abdome (uma incisão dentro do umbigo e duas pequenas incisões lateralmente ao umbigo – 5 mm), menores complicações de ferida operatória (seroma, hematoma, infecção) e retorno mais rápido às atividades normais. Além disso, na correção por videolaparoscopia ou robótica podemos avaliar se há outras hérnias e corrigi-las ao mesmo tempo, realizamos a correção das hérnias dos dois lados, quando presente, com apenas 3 pequenas incisões na pele, não necessitando de mais incisões para fazer os dois lados, a tela fica pelo lado de dentro da parede abdominal, isto é, o paciente não sente a tela e outra vantagem é que a tela que colocamos cobre toda a área de fraqueza da região inguinal, evitando que surjam outras hérnias vizinhas. Além dessas vantagens citadas acima do reparo laparoscópico ou robótico, um outro recurso que usamos é a colocação de uma tela autoaderente, isto é, não necessitamos utilizar grampos ou outros materiais para fixação da tela, o que reduz ainda mais a dor pós-operatória. O relato dos pacientes no pós-operatório imediato à cirurgia é de apenas um leve desconforto na região inguinal (sensação de que foi mexido), mas não dor propriamente dita. Por fim, vale ressaltar que o tratamento das hérnias da parede abdominal vem evoluindo muito nos últimos anos, trazendo melhores resultados, menos complicações e menos dor para os pacientes. Recomendo sempre que o paciente procure um especialista em hérnia para avaliação e tratamento da mesma.


Texto escrito pelo Dr. Jefferson Kalil